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quinta-feira, 26 de maio de 2011

O que discutir sobre o polêmico livro?

Fonte: Folha de São Paulo, 26 de maio de 2011 - PASQUALE CIPRO NETO
Em 1988, eleita prefeita de São Paulo, a professora Luiza Erundina nomeou Paulo Freire secretário da Educação do município. Antes de assumir, o consagrado educador disse mais ou menos isto: "A criança terá uma escola na qual a sua linguagem seja respeitada (...) Uma escola em que a criança aprenda a sintaxe dominante, mas sem desprezo pela sua (...) Precisamos respeitar a sua sintaxe mostrando que sua linguagem é bonita e gostosa, às vezes é mais bonita que a minha. E, mostrando tudo isso, dizer a ele: "Mas para tua própria vida tu precisas dizer a gente chegou em vez de dizer a gente cheguemos". Isto é diferente, a abordagem é diferente. É assim que queremos trabalhar, com abertura, mas dizendo a verdade".
A declaração de Freire causou barulho semelhante ao que causou (e ainda causa) o livro "Por uma Vida Melhor", em que se mostram fatos relativos às variações linguísticas. Nele, dá-se como exemplo de norma popular a frase "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado". Dado o exemplo, explica-se isto: "O fato de haver a palavra os (plural) indica que se trata de mais de um livro. Na variedade popular, basta que esse primeiro termo esteja no plural para indicar mais de um referente". O livro prossegue: "Reescrevendo a frase no padrão culto da língua, teremos: "Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados". Você pode estar se perguntando: "Mas eu posso falar 'os livro'?" Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico". Há uma certa contradição na explicação, já que na frase popular a forma verbal ("estão") está no plural. Nessa variedade, o que se usa é "tá".
O caso aborda no livro é tecnicamente chamado de "plural redundante". Tradução: na forma culta ("Os livros ilustrados mais interessantes estão emprestados"), todos os elementos que se referem a "livros" (núcleo do sujeito) estão no plural (os, ilustrados, interessantes, estão, emprestados). É assim que funciona a norma culta do espanhol, do português, do italiano e do francês, por exemplo. Em francês, o plural redundante se dá essencialmente na escrita; na fala, singular e plural muitas vezes se igualam. Em inglês, pluraliza-se o substantivo; o artigo, o possessivo e o adjetivo são fixos (na escrita e na fala). Quanto ao verbo, a terceira do singular do presente é diferente das demais pessoas em 99,99% dos casos; no pretérito e no futuro, há apenas uma forma para todas as pessoas.
O fato é que a ausência do plural redundante não se restringe à variedade popular do português do Brasil. Também é fato que, apesar de algumas afirmações pueris (""Mas eu posso falar "os livro'?" Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico"), em nenhum momento o livro nega a existência da norma culta, como também não se nega a mostrá-la e ensiná-la. Há vários exercícios em que se pede a passagem da norma popular para a culta. Definitivamente, não se pode dizer que o livro "ensina errado". O cerne da questão é outro. O que expliquei sobre o exemplo do livro é assunto da linguística, que, grosso modo, pode ser definida como "estudo da linguagem e dos princípios gerais de funcionamento e evolução das línguas" ("Aulete"). A linguística não discute como deve ser; discute como é, como funciona. O que parece cabível discutir é se princípios de linguística devem ser abordados num livro que não se destina a alunos de letras, em que a linguística é disciplina essencial. Esse é o verdadeiro debate. Não faltam opiniões fortes dos dois lados. É isso.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Secretário admite novo erro em livro para criança

Quando ocorre algum fato nas escolas e a mídia divulga, de imediato o governo tenta culpar e afastar os indicados, mesmo que não exista prova alguma, entretanto, quando ocorre dentro da cúpula do governo nada acontece, espera-se que com o tempo a população esqueça e ninguém é punido.
Fonte: 29/05/2009 - Gilberto Yoshinaga - do Agora
O secretário estadual da Educação, Paulo Renato Souza, admitiu ontem mais um erro do governo na seleção dos livros. No caso mais recente, divulgado ontem pelo Agora, a obra "Poesia do Dia -Poetas de Hoje para Leitores de Agora", disponível para as crianças da 3ª série (nove anos de idade), traz expressões como "Tome drogas" e "Nunca ame ninguém. Estupre". "Realmente foi um erro. Ninguém da secretaria pensa que o livro é adequado para a 3ª série. Os exemplares já estão sendo retirados do acervo da terceira série", disse. Segundo ele, uma sindicância vai apurar o caso. "Erros acontecem. Certamente alguém terá de ressarcir o prejuízo", disse. "Minha ideia é que possamos devolver para as editoras e pedir livros adequados, em substituição, ou o ressarcimento dos recursos", afirmou Paulo Renato. "De certa forma, houve erro da editora, ela sabia que eram livros infantis. A Via Lettera, editora de um dos títulos polêmicos, disse em nota que não faz recomendação de títulos pela faixa etária. "Uma vez solicitada a compra, efetuamos a venda. É um processo mecânico. Não fomos informados, no ato da compra, a quem seria destinado. Já a Abril Educação, editora de outro livro recolhido, afirmou que o título é recomendado para jovens de 13 anos, "indicação reforçada na contracapa, na apresentação e no suplemento ao professor". A Secretaria da Educação disse que gastou R$ 29.456,10 na compra de 1.313 exemplares de "Poesia do Dia". Mas não informou quanto gastou com todos os livros da coleção. Ainda de acordo com Paulo Renato, o governo José Serra (PSDB) deveria concluir ontem a reavaliação dos outros 816 títulos do kit para verificar se alguma outra obra tem conteúdo inapropriado. "A partir de quarta, todos os títulos ficarão expostos na secretaria, por 15 dias, à disposição de todos." Até a conclusão desta edição, a pasta não havia informado se a reavaliação foi concluída nem se outros títulos inadequados foram achados.
Outros erros
Esse foi o segundo título impróprio detectado no programa de incentivo à leitura. O livro "Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol", também indicado para alunos de 3ª série, contém vários palavrões, expressões de conotação sexual ou preconceituosa e frases de duplo sentido. O Estado gastou R$ 37.100 com 1.700 exemplares desse livro --dos quais 1.216 chegaram a ser distribuídos na rede estadual de ensino. Antes disso, em março, descobriu-se que 500 mil livros de geografia distribuídos como material didático tinham erros. No mapa da América do Sul, o Paraguai aparecia duas vezes e tinha a localização invertida com o Uruguai. A Fundação Vanzolini, que fez o material, trocou os livros com o equívoco.